Pedra Lisa Mármores e Granitos
Diagnóstico financeiro · Jan–Jul 2026

Uma leitura clara: camada por camada, o dinheiro da Pedra Lisa.

A operação gera margem saudável. O que decide o resultado final é o que acontece embaixo dela — como o crescimento foi pago, e como o caixa se movimenta enquanto isso.

Preparado para Rodolpho, administrador da Pedra Lisa Mármores e Granitos.

R$ 4,56M
Receita acumulada
26,0%
Margem operacional
R$ 1,27M
Investido em expansão
−R$ 233.701
Resultado de caixa líquido
01 — Onde a empresa está hoje

R$ 3,7 milhões em patrimônio de giro. Só 5,8% disso é caixa disponível agora.

A posição atual soma quatro camadas de liquidez muito diferentes. Da mais líquida (dinheiro em banco) à menos líquida (estoque parado no pátio), cada uma tem um prazo e um risco distintos para virar recurso disponível.

R$ 216.029
Saldo em conta · Sicoob
R$ 596.000
Cheques em carteira
R$ 1.787.000
Contas a receber
R$ 1.104.392
Estoque · a custo
Caixa (Sicoob)
5,8%
Cheque em carteira
16,1%
Contas a receber
48,3%
Estoque
29,8%
Leitura: o patrimônio existe e é real — mas 94,2% dele ainda precisa "acontecer" (compensar, ser cobrado, ou ser vendido) antes de virar caixa. É por isso que a empresa sente aperto no dia a dia mesmo tendo quase R$ 3,7M em ativos de giro.

Estoque: mais da metade está parado há mais de 1 ano

O valor de R$ 1.104.392 está a custo — se vendido, ainda soma a margem de cima. Olhando por tempo parado, o quadro é mais sério do que o número absoluto sugere.

55,8%
Do valor parado há mais de 1 ano
37,5%
Do valor parado há mais de 2 anos
14,0%
Do valor parado há mais de 3 anos
Exemplos de itens parados há muito tempoValorTempo médio
Chapa ImportadoR$ 286.589~993 dias (2,7 anos)
Chapa NacionalR$ 674.689~458 dias (15 meses)
Quartzo Amarelo/Vermelho EstelarR$ 13.309~2.646 dias (7,2 anos)
Leitura: mais da metade do estoque, em valor, não gira há mais de um ano — isso é capital represado de forma estrutural, não giro normal de operação. Convertê-lo em venda não só libera caixa, como ainda soma a margem que falta desde o custo até o preço de venda.
02 — A operação, isolada

O negócio, por si só, é saudável.

Comparando só receita e despesa operacional — sem investimento, sem dívida — a margem do período foi de 26,0%. Esse é um patamar bom para o setor, e é a base que sustenta tudo o que vem depois.

JAN
FEV
MAR
ABR
MAI
JUN
JUL
Receita Despesa operacional
Leitura: em todos os 7 meses, a receita superou a despesa operacional. Maio e junho tiveram os melhores resultados do período — vale entender o que foi feito nesses meses para sustentar isso adiante.

Despesa operacional: variável, fixo e imposto

Dos R$ 3.375.519 de despesa operacional, 58,6% acompanham diretamente a produção. O restante se divide entre estrutura fixa e carga tributária.

R$ 1.978.551
Despesa variável · 43,4% da receita · maior item: fio diamantado (R$ 431.552)
R$ 1.177.042
Custo fixo · 25,8% da receita · 93% é folha (salário + pró-labore + encargos)
R$ 219.926
Impostos · 4,8% da receita · COFINS, IRPJ, CSLL, ICMS, PIS, IPI
Sobre "Willian": é o pró-labore do sócio, cadastrado com o nome da pessoa em vez da natureza contábil. Somando com a linha "Prolabore" (R$ 147.364), a remuneração dos sócios soma R$ 386.679 no período — dentro de um Custo Fixo que é, no total, 93% composto por folha (salário, pró-labore e encargos).
03 — Para onde foi a margem

O investimento consumiu quase toda a margem gerada.

R$ 1,27M foram investidos em expansão de capacidade no período — praticamente o mesmo tamanho da margem operacional gerada (27,7% da receita, contra 26,0% de margem). A leitura em camadas mostra por quê o resultado final ficou negativo.

Receita
R$ 4.560.088 · 100%
Despesa operacional
−R$ 3.375.511 · 74,0%
Margem restante
R$ 1.184.577 · 26,0%
Investimento (CAPEX)
−R$ 1.265.328 · 27,7%

Composição do investimento

GrupoValor% do CAPEX
Equipamentos — Politriz CIMEF (1ª tranche), cabine de força, ventosa−R$ 605.26047,8%
Obras — calçamento, muro, galpão 2 e 3, pátio industrial−R$ 378.99429,9%
Infraestrutura−R$ 247.05919,5%
Veículos−R$ 34.0162,7%
Leitura: a decisão de investir parece correta — máquina nova e galpão são capacidade produtiva real. O problema é a forma de pagar: uma expansão desse tamanho saiu inteira do caixa de giro, quando deveria estar numa linha de crédito de investimento de longo prazo.
04 — Caixa e cheques

O caixa vive em zigue-zague — mês bom seguido de mês ruim, sem folga acumulada.

Olhando o resultado líquido de caixa mês a mês (entradas menos saídas), o padrão é claro: nenhuma sequência de dois meses bons seguidos. Cada avanço é devolvido no mês seguinte — é isso que mantém a empresa sempre no limite, mesmo tendo patrimônio real.

+52k
JAN
−179k
FEV
−33k
MAR
−171k
ABR
+51k
MAI
+89k
JUN
−42k
JUL
Mês com sobra de caixa Mês com consumo de caixa
Leitura: 4 dos 7 meses fecharam consumindo caixa — e dessa vez o saldo do período não empata: fecha negativo em R$ 233.701. Fevereiro e abril concentram a maior parte da queda (juntos, −R$ 350k). É o reflexo direto do timing de compensação de cheques somado ao investimento em curso, não um problema de vendas.

O mesmo zigue-zague aparece no saldo bancário e na carteira de cheques

JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL
Saldo bancário (R$ 156k – 312k) Cheque em carteira (R$ 508k – 720k)

Cheque devolvido: bruto, recuperado e líquido

Existem duas contas diferentes por trás desse número: cheques próprios usados para pagar fornecedor que voltaram (saída), e parte disso recuperado depois (entrada). O que sobra é o prejuízo real.

Saída (bruto)
−R$ 119.513
Entrada (recuperado)
+R$ 104.895
Líquido (prejuízo real)
−R$ 14.618
Leitura: o prejuízo contábil real de cheque devolvido é pequeno (R$ 14.618, 0,3% da receita) — quase irrelevante. O que dói de verdade não é a perda, é o efeito caixa temporário: quando o cheque volta, a empresa precisa pagar o fornecedor de novo na hora, e só recupera depois. É fricção de fluxo de caixa, não prejuízo estrutural.
Cheque vencido, não compensado

~13,5% do volume médio

Dinheiro que atrasa mas eventualmente compensa. É esse descompasso de prazo que explica o vaivém do saldo bancário mês a mês.

Carteira de cheques hoje

Estável no ano

De R$ 696.813 (jan) a R$ 596.000 (posição mais recente informada) — variação dentro da faixa normal do ano, sem sinal de reserva sendo consumida de forma estrutural.

Inadimplência total · 2025–jul/2026

R$ 137.075

Contas a receber vencidas em aberto (R$ 122.457) + líquido de cheque devolvido (R$ 14.618). Estável em ~R$ 4–6 mil/mês até junho/2026, salta para R$ 36.637 em julho.

O salto de julho é concentrado em 2 clientes

ClienteValor vencido% do salto de julho
Planeta G Mármores e GranitosR$ 15.00040,9%
Território Mármores e GranitosR$ 10.59928,9%
Bastone Mármores e GranitosR$ 6.42017,5%
Outros (4 clientes)R$ 4.61812,7%
Leitura: Planeta G e Território, sozinhos, respondem por 69,8% do salto de julho — mesmo padrão do cheque devolvido de junho: concentração pontual, não piora geral da carteira. A ação certa é cobrança/renegociação nominal com esses 2 clientes, não uma revisão geral de política de crédito.
05 — Dívida e financiamentos

A dívida de hoje é leve. A partir de outubro, ela quintuplica.

Além do Bandes, a compra da Politriz (CIMEF) foi estruturada em 3 tranches. A primeira já está paga e dentro do investimento analisado na seção 03 — as outras duas começam a pesar no caixa a partir de setembro/2026.

Bandes
30 de 60 parcelas pagas — restam 30
~R$ 20.000
Parcela mensal Bandes
3,1%
Bandes sobre a receita do período

As 3 tranches da compra da Politriz (CIMEF) — R$ 3.720.000

TrancheValorFormaPeríodo
1 — já pagaR$ 600.0008x R$ 75.000, cheque pré-datadoJan–Ago/2026
2 — contra entregaR$ 1.200.000Pagamento único, cheque pré-datadoAté 30/ago/2026
3 — parceladoR$ 1.920.00024x R$ 80.000, boleto~Set/2026 a ~Ago/2028

A tranche 1 já está contabilizada dentro do CAPEX de jan–jul analisado na seção 03 — não é um valor novo. As tranches 2 e 3 são o compromisso que ainda vem pela frente.

Compromisso mensal de dívida a partir de outubro/2026

R$ 20.000
Bandes — por mais 30 meses
R$ 80.000
CIMEF tranche 3 — por 24 meses
Leitura: o compromisso fixo mensal de dívida salta de ~R$ 20.000 hoje para ~R$ 100.000/mês a partir de outubro — 5x mais — por cerca de 2 anos. Some a isso o pagamento único da tranche 2 (R$ 1,2M) em agosto/setembro. É o momento de maior pressão de caixa que a empresa vai enfrentar nesta janela, e ele já está mapeado — a hora de se preparar é agora, antes que a conta chegue.
06 — Detalhamento das contas

Nem todo mês tem a mesma folga — abril quase zerou a margem operacional.

Olhando despesa operacional (variável + fixo + imposto) como % da receita de cada mês, fica claro que a margem de 26,0% do período é uma média — alguns meses operaram muito mais apertados que outros.

JAN · 66%
FEV · 94%
MAR · 82%
ABR · 99%
MAI · 58%
JUN · 56%
JUL · 74%
Despesa/receita < 80% Despesa/receita ≥ 80%
Leitura: em abril, a despesa operacional consumiu 99% da receita do mês — praticamente sem sobra. Fevereiro e março também operaram acima de 80%. Não é o investimento que aperta esses meses, é a própria operação — vale entender o que aconteceu especificamente em fev/mar/abr (queda de preço, mix de produto, ou custo pontual).

Quem mais pesa na despesa variável

ContaValor% da desp. variável
Fio diamantado−R$ 431.55221,8%
Energia−R$ 250.41412,7%
Compra de blocos−R$ 237.02912,0%
Outros / despesas gerais−R$ 230.24311,6%
Outros manutenção industrial−R$ 220.09611,1%
Demais contas (26 itens)−R$ 609.21730,8%

Essas 5 contas somam 69,2% de toda a despesa variável — concentração alta, o que é bom para o controle: poucos itens explicam a maior parte do custo.

Quem mais pesa no custo fixo

ContaValor% do custo fixo
Salário−R$ 488.45341,5%
Willian (pró-labore sócio)−R$ 239.31520,3%
Pró-labore−R$ 147.36412,5%
INSS−R$ 117.90710,0%
Demais contas (15 itens)−R$ 184.00315,6%

Para refletir com a diretoria

01

Fio diamantado merece contrato dedicado

Sozinho é 21,8% da despesa variável e disparou em julho (R$ 126k vs. média de R$ 45–50k). Negociar preço fixo ou volume com fornecedor reduz a maior fonte de oscilação de custo direto.

02

Custo fixo já é quase só folha

93% do custo fixo é salário, pró-labore e encargos. Não há "gordura" administrativa para cortar — qualquer ganho de margem aqui só vem de produtividade, não de corte de despesa.

03

Fev, mar e abr pedem uma investigação à parte

Três meses seguidos operando acima de 80% de despesa/receita, sem relação direta com o investimento. Vale isolar: foi preço de venda, mix de produto ou custo pontual?

04

Imposto tem calendário, não é linear

Varia de 1,9% a 10,2% da receita mês a mês — sinal de recolhimento concentrado em datas específicas. Mapear esse calendário ajuda a prever os meses de maior saída de caixa por imposto.

07 — Projeção set–dez/2026

Com a Politriz rodando a R$ 1M/mês, setembro é o único mês que preocupa.

Simulação com a Politriz em operação plena: receita de R$ 1.000.000/mês, despesa variável e imposto crescendo na mesma proporção histórica (43,4% e 4,8% da receita), custo fixo na média (R$ 168.150/mês), e a dívida entrando conforme o calendário real — Bandes o tempo todo, CIMEF tranche 3 a partir de outubro, e o pagamento único da tranche 2 (R$ 1,2M) em setembro.

MêsReceitaSaídas totaisResultado
SetembroR$ 1.000.000−R$ 1.871.010−R$ 871.010
OutubroR$ 1.000.000−R$ 751.010+R$ 248.990
NovembroR$ 1.000.000−R$ 751.010+R$ 248.990
DezembroR$ 1.000.000−R$ 751.010+R$ 248.990
Total set–dezR$ 4.000.000−R$ 4.124.040−R$ 124.040
Leitura: setembro é matematicamente negativo por causa do pagamento único de R$ 1,2M — nenhum volume de vendas realista cobre isso num mês só. De outubro em diante, a operação com a Politriz rodando gera sobra consistente de ~R$ 249 mil/mês, mesmo já pagando a parcela cheia da máquina.

Break-even: quanto a empresa precisa faturar para não ficar no vermelho

R$ 519.324
Break-even mensal · outubro em diante (com CIMEF rodando)
R$ 2.681.985
Break-even de setembro (por causa do pagamento único)
Leitura: com R$ 1M projetado de outubro em diante, a empresa opera quase 2x acima do ponto de equilíbrio (margem de segurança de ~48%). Setembro é o único mês que precisa de uma fonte extra de caixa — é exatamente para cobrir esse mês que servem as recomendações de estoque e refinanciamento do CAPEX a seguir.
08 — A história até aqui

Rodolpho, este é o resumo do que os números contam.

A Pedra Lisa tem um negócio saudável na base. Em todos os 7 meses analisados, a receita superou a despesa operacional, com margem média de 26,0% — um patamar bom para o setor de mármores e granitos. Isso não é um problema a resolver; é o alicerce que sustenta o resto da decisão.

Sobre esse alicerce, a empresa tomou uma decisão de investimento correta: R$ 1,27M em uma politriz nova, galpão e reforma geral — capacidade produtiva real, não gasto supérfluo. O problema não foi decidir investir, foi como pagar por isso: o valor saiu quase inteiro do caixa de giro, no mesmo ritmo em que a margem era gerada, deixando pouca sobra.

Esse aperto aparece de forma consistente em três lugares diferentes — o saldo bancário, a carteira de cheques e o resultado líquido mensal — sempre com o mesmo padrão de zigue-zague: um mês de sobra é seguido por um mês de consumo, sem folga que se acumule. A causa não é uma única falha, é a soma de três fricções menores: o timing de compensação de cheques, a inadimplência pontual de poucos clientes (não da carteira toda), e a forma como o investimento foi financiado.

O resultado do período fechou negativo em R$ 233.701 — não é uma crise, mas é um sinal para ajustar rota antes que vire uma. E o próximo desafio já está mapeado: setembro concentra um pagamento único de R$ 1,2M que nenhum volume de venda cobre sozinho, e a partir de outubro o compromisso mensal de dívida sobe de ~R$ 20 mil para ~R$ 100 mil.

A boa notícia é que, olhando para frente, a conta fecha: com a Politriz rodando a R$ 1M/mês de receita, a operação gera ~R$ 249 mil de sobra por mês a partir de outubro — quase 2x o ponto de equilíbrio. O desafio real é só atravessar setembro, e para isso a empresa já tem dois ativos parados que resolvem boa parte da conta: R$ 1,1M em estoque (mais da metade parado há mais de um ano) e a possibilidade de usar a própria Politriz, já livre de ônus, como garantia para uma linha de giro.

Em resumo: a operação está no caminho certo, o investimento fez sentido estratégico, e o que precisa de atenção agora é disciplina de caixa para atravessar setembro — girar estoque parado, refinanciar o CAPEX com a própria máquina como garantia, e reserva mínima de caixa — não uma mudança de direção do negócio.

09 — Próximos passos

Oito movimentos para atravessar setembro e destravar o caixa.

01

Girar o estoque parado

R$ 1,1M a custo, mais da metade parado há mais de 1 ano. Vendido, ainda soma a margem entre custo e preço — é a fonte de caixa mais rápida e mais barata disponível hoje.

02

Refinanciar o CAPEX com a própria Politriz como garantia

Alienação fiduciária da máquina (já livre de ônus) para uma linha de capital de giro — Bandes ou banco novo. O histórico de 30 parcelas pagas em dia é o argumento de negociação.

03

Preparar o caixa para setembro

O único mês estruturalmente negativo da projeção, por causa do pagamento único de R$ 1,2M. É para cobrir esse mês que servem as duas recomendações acima.

04

Fluxo de caixa projetado com data de cheque

Incluir a expectativa de compensação de cheques recebidos e emitidos — hoje é o maior gerador de surpresa no saldo bancário.

05

Reserva mínima de caixa

Definir uma meta de segurança de 15–20 dias de despesa operacional (~R$ 350–450 mil) como colchão permanente.

06

Cobrar os 2 clientes concentradores

Planeta G e Território somam quase 70% do salto de inadimplência de julho — ação nominal e direta, não revisão geral de política de crédito.

07

Negociar contrato de fio diamantado

Maior item da despesa variável (21,8%) e o que mais oscilou no período. Um contrato de preço ou volume fixo reduz a maior fonte de variação de custo direto.

08

Dividir pró-labore em fixo + distribuição de lucro

Os 8,5% da receita em pró-labore estão dentro do padrão saudável para PMEs (5–10%) — o valor não é o problema. A rigidez é: manter uma base fixa menor e tratar o excedente como distribuição, paga só quando o caixa permite, não como retirada garantida todo mês.