Uma leitura clara: camada por camada, o dinheiro da Pedra Lisa.
A operação gera margem saudável. O que decide o resultado final é o que acontece embaixo dela — como o crescimento foi pago, e como o caixa se movimenta enquanto isso.
Preparado para Rodolpho, administrador da Pedra Lisa Mármores e Granitos.
R$ 3,7 milhões em patrimônio de giro. Só 5,8% disso é caixa disponível agora.
A posição atual soma quatro camadas de liquidez muito diferentes. Da mais líquida (dinheiro em banco) à menos líquida (estoque parado no pátio), cada uma tem um prazo e um risco distintos para virar recurso disponível.
Estoque: mais da metade está parado há mais de 1 ano
O valor de R$ 1.104.392 está a custo — se vendido, ainda soma a margem de cima. Olhando por tempo parado, o quadro é mais sério do que o número absoluto sugere.
| Exemplos de itens parados há muito tempo | Valor | Tempo médio |
|---|---|---|
| Chapa Importado | R$ 286.589 | ~993 dias (2,7 anos) |
| Chapa Nacional | R$ 674.689 | ~458 dias (15 meses) |
| Quartzo Amarelo/Vermelho Estelar | R$ 13.309 | ~2.646 dias (7,2 anos) |
O negócio, por si só, é saudável.
Comparando só receita e despesa operacional — sem investimento, sem dívida — a margem do período foi de 26,0%. Esse é um patamar bom para o setor, e é a base que sustenta tudo o que vem depois.
Despesa operacional: variável, fixo e imposto
Dos R$ 3.375.519 de despesa operacional, 58,6% acompanham diretamente a produção. O restante se divide entre estrutura fixa e carga tributária.
O investimento consumiu quase toda a margem gerada.
R$ 1,27M foram investidos em expansão de capacidade no período — praticamente o mesmo tamanho da margem operacional gerada (27,7% da receita, contra 26,0% de margem). A leitura em camadas mostra por quê o resultado final ficou negativo.
Composição do investimento
| Grupo | Valor | % do CAPEX |
|---|---|---|
| Equipamentos — Politriz CIMEF (1ª tranche), cabine de força, ventosa | −R$ 605.260 | 47,8% |
| Obras — calçamento, muro, galpão 2 e 3, pátio industrial | −R$ 378.994 | 29,9% |
| Infraestrutura | −R$ 247.059 | 19,5% |
| Veículos | −R$ 34.016 | 2,7% |
O caixa vive em zigue-zague — mês bom seguido de mês ruim, sem folga acumulada.
Olhando o resultado líquido de caixa mês a mês (entradas menos saídas), o padrão é claro: nenhuma sequência de dois meses bons seguidos. Cada avanço é devolvido no mês seguinte — é isso que mantém a empresa sempre no limite, mesmo tendo patrimônio real.
O mesmo zigue-zague aparece no saldo bancário e na carteira de cheques
Cheque devolvido: bruto, recuperado e líquido
Existem duas contas diferentes por trás desse número: cheques próprios usados para pagar fornecedor que voltaram (saída), e parte disso recuperado depois (entrada). O que sobra é o prejuízo real.
~13,5% do volume médio
Dinheiro que atrasa mas eventualmente compensa. É esse descompasso de prazo que explica o vaivém do saldo bancário mês a mês.
Estável no ano
De R$ 696.813 (jan) a R$ 596.000 (posição mais recente informada) — variação dentro da faixa normal do ano, sem sinal de reserva sendo consumida de forma estrutural.
R$ 137.075
Contas a receber vencidas em aberto (R$ 122.457) + líquido de cheque devolvido (R$ 14.618). Estável em ~R$ 4–6 mil/mês até junho/2026, salta para R$ 36.637 em julho.
O salto de julho é concentrado em 2 clientes
| Cliente | Valor vencido | % do salto de julho |
|---|---|---|
| Planeta G Mármores e Granitos | R$ 15.000 | 40,9% |
| Território Mármores e Granitos | R$ 10.599 | 28,9% |
| Bastone Mármores e Granitos | R$ 6.420 | 17,5% |
| Outros (4 clientes) | R$ 4.618 | 12,7% |
A dívida de hoje é leve. A partir de outubro, ela quintuplica.
Além do Bandes, a compra da Politriz (CIMEF) foi estruturada em 3 tranches. A primeira já está paga e dentro do investimento analisado na seção 03 — as outras duas começam a pesar no caixa a partir de setembro/2026.
As 3 tranches da compra da Politriz (CIMEF) — R$ 3.720.000
| Tranche | Valor | Forma | Período |
|---|---|---|---|
| 1 — já paga | R$ 600.000 | 8x R$ 75.000, cheque pré-datado | Jan–Ago/2026 |
| 2 — contra entrega | R$ 1.200.000 | Pagamento único, cheque pré-datado | Até 30/ago/2026 |
| 3 — parcelado | R$ 1.920.000 | 24x R$ 80.000, boleto | ~Set/2026 a ~Ago/2028 |
A tranche 1 já está contabilizada dentro do CAPEX de jan–jul analisado na seção 03 — não é um valor novo. As tranches 2 e 3 são o compromisso que ainda vem pela frente.
Compromisso mensal de dívida a partir de outubro/2026
Nem todo mês tem a mesma folga — abril quase zerou a margem operacional.
Olhando despesa operacional (variável + fixo + imposto) como % da receita de cada mês, fica claro que a margem de 26,0% do período é uma média — alguns meses operaram muito mais apertados que outros.
Quem mais pesa na despesa variável
| Conta | Valor | % da desp. variável |
|---|---|---|
| Fio diamantado | −R$ 431.552 | 21,8% |
| Energia | −R$ 250.414 | 12,7% |
| Compra de blocos | −R$ 237.029 | 12,0% |
| Outros / despesas gerais | −R$ 230.243 | 11,6% |
| Outros manutenção industrial | −R$ 220.096 | 11,1% |
| Demais contas (26 itens) | −R$ 609.217 | 30,8% |
Essas 5 contas somam 69,2% de toda a despesa variável — concentração alta, o que é bom para o controle: poucos itens explicam a maior parte do custo.
Quem mais pesa no custo fixo
| Conta | Valor | % do custo fixo |
|---|---|---|
| Salário | −R$ 488.453 | 41,5% |
| Willian (pró-labore sócio) | −R$ 239.315 | 20,3% |
| Pró-labore | −R$ 147.364 | 12,5% |
| INSS | −R$ 117.907 | 10,0% |
| Demais contas (15 itens) | −R$ 184.003 | 15,6% |
Para refletir com a diretoria
Fio diamantado merece contrato dedicado
Sozinho é 21,8% da despesa variável e disparou em julho (R$ 126k vs. média de R$ 45–50k). Negociar preço fixo ou volume com fornecedor reduz a maior fonte de oscilação de custo direto.
Custo fixo já é quase só folha
93% do custo fixo é salário, pró-labore e encargos. Não há "gordura" administrativa para cortar — qualquer ganho de margem aqui só vem de produtividade, não de corte de despesa.
Fev, mar e abr pedem uma investigação à parte
Três meses seguidos operando acima de 80% de despesa/receita, sem relação direta com o investimento. Vale isolar: foi preço de venda, mix de produto ou custo pontual?
Imposto tem calendário, não é linear
Varia de 1,9% a 10,2% da receita mês a mês — sinal de recolhimento concentrado em datas específicas. Mapear esse calendário ajuda a prever os meses de maior saída de caixa por imposto.
Com a Politriz rodando a R$ 1M/mês, setembro é o único mês que preocupa.
Simulação com a Politriz em operação plena: receita de R$ 1.000.000/mês, despesa variável e imposto crescendo na mesma proporção histórica (43,4% e 4,8% da receita), custo fixo na média (R$ 168.150/mês), e a dívida entrando conforme o calendário real — Bandes o tempo todo, CIMEF tranche 3 a partir de outubro, e o pagamento único da tranche 2 (R$ 1,2M) em setembro.
| Mês | Receita | Saídas totais | Resultado |
|---|---|---|---|
| Setembro | R$ 1.000.000 | −R$ 1.871.010 | −R$ 871.010 |
| Outubro | R$ 1.000.000 | −R$ 751.010 | +R$ 248.990 |
| Novembro | R$ 1.000.000 | −R$ 751.010 | +R$ 248.990 |
| Dezembro | R$ 1.000.000 | −R$ 751.010 | +R$ 248.990 |
| Total set–dez | R$ 4.000.000 | −R$ 4.124.040 | −R$ 124.040 |
Break-even: quanto a empresa precisa faturar para não ficar no vermelho
Rodolpho, este é o resumo do que os números contam.
A Pedra Lisa tem um negócio saudável na base. Em todos os 7 meses analisados, a receita superou a despesa operacional, com margem média de 26,0% — um patamar bom para o setor de mármores e granitos. Isso não é um problema a resolver; é o alicerce que sustenta o resto da decisão.
Sobre esse alicerce, a empresa tomou uma decisão de investimento correta: R$ 1,27M em uma politriz nova, galpão e reforma geral — capacidade produtiva real, não gasto supérfluo. O problema não foi decidir investir, foi como pagar por isso: o valor saiu quase inteiro do caixa de giro, no mesmo ritmo em que a margem era gerada, deixando pouca sobra.
Esse aperto aparece de forma consistente em três lugares diferentes — o saldo bancário, a carteira de cheques e o resultado líquido mensal — sempre com o mesmo padrão de zigue-zague: um mês de sobra é seguido por um mês de consumo, sem folga que se acumule. A causa não é uma única falha, é a soma de três fricções menores: o timing de compensação de cheques, a inadimplência pontual de poucos clientes (não da carteira toda), e a forma como o investimento foi financiado.
O resultado do período fechou negativo em R$ 233.701 — não é uma crise, mas é um sinal para ajustar rota antes que vire uma. E o próximo desafio já está mapeado: setembro concentra um pagamento único de R$ 1,2M que nenhum volume de venda cobre sozinho, e a partir de outubro o compromisso mensal de dívida sobe de ~R$ 20 mil para ~R$ 100 mil.
A boa notícia é que, olhando para frente, a conta fecha: com a Politriz rodando a R$ 1M/mês de receita, a operação gera ~R$ 249 mil de sobra por mês a partir de outubro — quase 2x o ponto de equilíbrio. O desafio real é só atravessar setembro, e para isso a empresa já tem dois ativos parados que resolvem boa parte da conta: R$ 1,1M em estoque (mais da metade parado há mais de um ano) e a possibilidade de usar a própria Politriz, já livre de ônus, como garantia para uma linha de giro.
Em resumo: a operação está no caminho certo, o investimento fez sentido estratégico, e o que precisa de atenção agora é disciplina de caixa para atravessar setembro — girar estoque parado, refinanciar o CAPEX com a própria máquina como garantia, e reserva mínima de caixa — não uma mudança de direção do negócio.
Oito movimentos para atravessar setembro e destravar o caixa.
Girar o estoque parado
R$ 1,1M a custo, mais da metade parado há mais de 1 ano. Vendido, ainda soma a margem entre custo e preço — é a fonte de caixa mais rápida e mais barata disponível hoje.
Refinanciar o CAPEX com a própria Politriz como garantia
Alienação fiduciária da máquina (já livre de ônus) para uma linha de capital de giro — Bandes ou banco novo. O histórico de 30 parcelas pagas em dia é o argumento de negociação.
Preparar o caixa para setembro
O único mês estruturalmente negativo da projeção, por causa do pagamento único de R$ 1,2M. É para cobrir esse mês que servem as duas recomendações acima.
Fluxo de caixa projetado com data de cheque
Incluir a expectativa de compensação de cheques recebidos e emitidos — hoje é o maior gerador de surpresa no saldo bancário.
Reserva mínima de caixa
Definir uma meta de segurança de 15–20 dias de despesa operacional (~R$ 350–450 mil) como colchão permanente.
Cobrar os 2 clientes concentradores
Planeta G e Território somam quase 70% do salto de inadimplência de julho — ação nominal e direta, não revisão geral de política de crédito.
Negociar contrato de fio diamantado
Maior item da despesa variável (21,8%) e o que mais oscilou no período. Um contrato de preço ou volume fixo reduz a maior fonte de variação de custo direto.
Dividir pró-labore em fixo + distribuição de lucro
Os 8,5% da receita em pró-labore estão dentro do padrão saudável para PMEs (5–10%) — o valor não é o problema. A rigidez é: manter uma base fixa menor e tratar o excedente como distribuição, paga só quando o caixa permite, não como retirada garantida todo mês.